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PRÉMIOS DE LITERATURA
FERREIRA DE CASTRO
APNLJFC

 

Excertos de Obras

" Manhã alta, toda vestida de azul, com folhos brancos que o mar tecia e esfarrapava ao sabor da ondulação, a sombra escortinada na linha do horizonte ia crescendo e definindo-se em caprichoso recorte. Mais do que a terra próxima, como queriam os passageiros e a ciência náutica afirmava, dir-se-ia nuvem estática na luminosidade imperante. Era vulto apardaçado nos extremos, erguendo, algures, para o céu, um mamilo vulcânico e deixando que a sua encosta central se doirasse, suavemente, na luz matutina. Visto de longe, a medrar, a medrar parecia recém - nascido no mistério oceânico, para enlevo de olhos fatigados pela monotonia marítima." (...)

(...) " O padre pediu licença e afastou-se, entregando ao sol o seu corpo alto, forte, de rosto redondo e olhos muito vivos.(...) Viera o padre colocar-se no meio da estrada, à frente de Juvenal e ao lado do acólito, que continuava a empunhar a grande cruz. O Cristo de prata estava agora por cima de todas as cabeças., no silêncio que em redor se fizera(...). O arvoredo dir-se-ia extático, também à escuta, e cobria de sombra as cabeças dos homens que estavam ali. Só a imagem refulgia de todo ao Sol, que golfava por uma abertura das franças e desenhava sobre a estrada." (...)

" (...) Eram centenas de cabeças, umas atrás das outras, sempre umas atrás das outras; homens e mulheres, rapazes de entrar nas sortes e velhas e velhos que se arrastavam tocados pelo entusiasmo que galvanizava a horda inteira. Eles vinham de bordão, colete sem casaco e barretes camacheiros, postos como rodilhas, sobre a cabeça, ou com a «berlota» a dar, a dar de abas tão longas e caídas, que nem demónios os usariam com tal desembaraço e expressão. Entre as mulheres, havia as que traziam mantilha branca, como se fossem para festa, e outras que, com os filhos ao colo, apresentavam, na cara famulenta, pálpebras arroxeadas e faces lívidas, a recordarem a tuberculose que lhes roía, lá dentro, os pulmões.(...) Atrás, porém, solenes como estandarte saído de museu(...) vinha muito esticada entre duas varas a que estava presa, uma larga toalha de linho(...) um pincel desenhara, em letras de palmo e meio, o grito que merecia ser levado em andor :
QUEREMOS PÃO !"(...)

Eternidade

"Amaro (...). Entrou na canoa solitária e, com um cigarro olvidado no canto dos lábios partiu também. Ia perto ainda quando viu os topes da brenha iluminarem - se com uma luz muito mais doirada do que a dessa manhã (...) . Voltou-se e verificou, satisfeito, que o fogo cumpria, com impetuoso brio, a missão que ele lhe confiara. As chamas já se erguiam muito alto, por detrás do arvoredo que muralhava a curva do Maici - Mirim; e o seu clarão, como que levado por uma brisa que nenhuma pele sentia, ampliava - se de instante a instante. As labaredas subiam e a luminosidade alastrava cada vez mais. Já se distinguiam nitidamente os contornos dos ramos que na margem direita se debruçavam, muito quedos e misteriosos, sobre a água."

O Instinto Supremo

(...) " O sol desaparecia. Mas dir-se-ia que alguém lançava um fósforo no fim do mar, provocando grandioso incêndio. Era um clarão enorme, rúbido, deslumbrante, que subia da linha do horizonte para o céu, labaredas que se enroscavam em nuvens, farrapos de chamas, pairando extaticamente. Pouco a pouco ia-se esbraseando, tornando-se sangue de morticínio, fulgor de pira incomensurável a arder no limite do oceano. Surgia onde já não se vislumbrava ondulação, por detrás de algo incorpóreo, multicolorizado - biombo de pólen que resguardava o fogo. E a sua esplendecência atingia o centro da cúpula celeste : era ali véu escarlate, diáfano, deixando ver, em desmaio o fundo azuláceo. Depois, lentamente, o mar apagava a fogueira, o sangue perdia-se na água. No céu brilhavam as primeiras estrelas."(...)

(...) " Chegara a faina das colheitas. (...) O cafezal, alinhado, verde, luzidio, parecia mais lindo naquele período, com os seus frutos vermelhos, como cerejas pequeninas e ovais (...) "

Emigrantes

" Quando Ermelinda surgiu com o filho ao colo, a cabeça ligeiramente vergada e os olhos na lama do caminho, as almas rudes amoleceram e a curiosidade foi substituída pela comoção. Nenhuma boca se abriu para comentário de momento; nenhum olhar se cruzou intencionalmente, com outro. O silêncio prendia cada um a si próprio e criava entre os que estavam e a que partia indefinidos laços de emoção. "

Terra Fria

 

“Ele não ousava interromper Adriano. Ouvia-o ansiosamente, como se o amigo o libertasse, pouco a pouco,, de algo que o rebaixava perante si próprio. Mas Adriano calara-se. Acendera um cigarro, voltara a cara para o tecto, soprando o fumo, e, já com outro tom de voz, acrescentara:
- O seu mal é você pensar demasiado em si próprio. A vida não é apenas cada um de nós. É preciso que pensemos em alguma coisa mais do que o nosso egoísmo, em alguma coisa que seja mais elevada e diga respeito a todos. Já lhe tenho falado sobre isso muitas vezes... Se você tivesse um ideal que o apaixonasse, agora já não sofreria tanto. Quando nós pensamos em todos os outros, sentimo-nos com menos importância.”

A Tempestade

“Nesse tempo, vários intelectuais haviam aderido ao Partido Socialista. Alguns eram professores universitários, outros pertenciam a instituições académicas e colaboravam em “El Sol” e na “Revista del Ocidente”, que, nesses dias, davam lustre a quem em suas páginas se mostrava. O Partido recebera-os festivamente, com muitos bombos por toda a parte, que a conquista era de alegrar e lançaria ecos amofinantes nos arraiais inimigos; Soriano adivinhara, porém, em alguns dos velhos militantes a mesma apreensão que ele sentira. A própria massa dir-se-ia retraída e em expectativa, embora nas discussões de fábricas e de cafés, muitos operários socialistas sentissem prazer em citar aquela benesse do destino perante os camaradas que outras ideias defendiam.”

A Curva da Estrada

 

“Acercamo-nos, finalmente, do que foi o coração do templo. Atrás de nós, caiados por uma nesga de sol, ficam os escombros do quinto e do sexto pilões; e à frente, velhas portas, ainda de vergas intactas, escancaram-se ao nosso avanço.
- Anda, passa! – parecem dizer-nos – Se Amon ainda estivesse aqui não seria permitido entrar. Mas podes tranquilizar-te, porque ele morreu há muito.”

As Maravilhas Artísticas do mundo

“Agora, desembocamos em ruas onde a vida se mostra mais movimentada e rumorosa. Os primeiros andares estão iluminados e nas suas janelas e varandas debruçam-se corpos femininos, com vestes espaventosas, um anel no nariz, escravas nos braços e nas pernas”

A Volta ao Mundo

 

“Semanas após semanas, as árvores da Avenida da Liberdade, minhas confidentes desde a juventude, viram-me passar de cabeça baixa, hesitante e meditativo, mais uma vez torturado pelo livro maldito.
Eu enredara-me num dilema, nenhuma das soluções me comprazia.”

Os Fragmentos

 

“Trepava a água às viçosas plantações, depenando toda a terra que braços fortes tinham roçado para a obra da criação. E os mais desprevenidos viam até ir na corrente, desfeito com vigor daninho, o lar que haviam fundado ao alcance de intrusa. Era a desolação e era a pobreza que a grande toalha impura trazia nas suas dobras”.

A Selva

 

“Ela era mestiça e trazia na pele o ardor do sol que ajuda a criar as espécies. Ele era a fome negra, reprimida, claustral, uma sombra prudente, astuta, errando no meio dos coqueirais. A imagem da gazela entrava-lhe na menina dos olhos, desaparecia e tornava a aparecer na mata cerrada dos seus apetites com essa mesma desenvoltura e alegria de viver que têm os patos bravos mergulhando e emergindo, emergindo e mergulhando, em marés ou lagos”

A Missão

 

“Neste momento, para ser justo, devo ser contra a justiça. Uma simples dúvida basta quando se trata de uma vida humana. Parece-me que nada há no mundo que seja mais importante. E se já é absurdo castigar a morte dum homem matando outro, é horripilante a simples admissão de se matar um inocente!”
Nesta peça inédita, que lhe foi solicitada por Robles Monteiro e Amélia Rey-Colaço em 1934 e a censura proibiu de representar-se, o autor de A SELVA dramatiza um caso de consciência a partir de um facto real que apaixonou a opinião pública: o rapto do filho de Charles Lindbergh e o julgamento do seu presumível assassino.

In “Sim, uma dúvida basta”

 

“Logo que as cabras e as ovelhas entestaram à corte, o “Piloto” deu por findo o seu trabalho. E antes mesmo de o pastor, que lhe aproveitava os serviços, se dirigir a casa, ele meteu ao extremo da vila. Rabo entre as pernas, focinho quase raspando a terra, ia triste, cismático, como perro vadio de estrada, descoçoado da vida. Subitamente, porém, sorveu no ar algo que lhe era conhecido. A cauda ergueu-se num ápice, formando volta que nem cabo de guarda-chuva; a cabeça levantou-se também e nela luziram os olhitos até aí amortecidos. “Piloto” estugou o passo. O caminho estava cheio de tentações, de paragens obrigatórias, estabelecidas por todos os cães que passaram ali desde que Manteigas existia, desde há muitos séculos(...).”
“(...)Ao morrer de Julho, a serra voltou a mostrar copiosas presenças humanas. As famílias dos pastores e os pastores que não andavam de guarda às ovelhas, haviam subido o vale à montanha, para ceifar as searas. Por todas as encostas e mesmo nos plainos cimeiros viam-se, nessa época, pequenas e isoladas manchas amarelas, contrastando, num soberbo efeito, com o verdor da serra onde elas se exibiam. Era o centeio maduro aguardando a foice dos que o semearam.(...)”

A Lã e a Neve

 

”O homem ama na terra natal os seus hábitos, se ali reside ou residiu muito tempo; ama a sua casa e o seu agro, se os tem; e ama, sobretudo, a sua infância, que lhe comandará a vida inteira e se amalgama com o drama biológico do envelhecimento e da morte. Ama esse período da sua existência por saber que jamais voltará a vivê-lo; e essa certeza de irrecuperabilidade embeleza-lhe o cenário nativo e valoriza-lhe os anos infantis, mesmo se neles conheceu a miséria, os trabalhos prematuros, as opressões e as humilhações impostas pelos adultos.
Não importa que a sua aldeia seja bela ou muito feia, maior do que uma vila ou minúscula como um vilar, mimosa como uma horta pegada a um jardim ou áspera como um cerro pedregoso e nu; que exponha crianças sujas, misturadas com porcos e cães na lama das congostas, durante o Inverno, ou flores sobre muros populares, na luz de cada nova Primavera.”

In “Os Fragmentos”, “A Aldeia Nativa”

 

“Toda a minha vida consciente fora norteada por aquela ideia: “Tu não te pertences!” “Tu não te pertences!” Mal espigara em adolescência, a frase, colhida no convívio dos camaradas, nos comícios das associações, nas brochuras vermelhas lidas sofregamente, instalara-se no meu espírito, apossara-se de mim, orientando-me os movimentos. Quase todos nós, fôssemos espíritos elementares ou já colhêssemos alguns frutos nos pomares do alfabeto, obedecíamos a igual crença. Não nos pertencíamos a nós, mas ao nosso ideal, aos espoliados, à Humanidade que sofria, à criação dum mundo novo, onde a justiça estivesse de pé, a colmeia vivesse em igualdade e o amor aplainasse a obra feita, durante um ror de séculos, por construtores de abismos”.

In “Os Fragmentos”, “O Intervalo”

 

“Todas as imposições da vida, as suas intimidades, os seus odores, as suas emergências, se desenrolavam entre estas quatro paredes. Aqui se procedia à sementeira de crianças, aqui elas nasciam, aqui a maioria delas falecia, por carência de higiene e de alimentação adequada aos seus corpitos tenros e indefesos. As sobreviventes gatinhavam no soalho encardido, sujas, babadas, entre farrapos avulsos, colchões estendidos no chão, cobertores amarfanhados sobre eles; e nos seus arrastares iam tombando as panelas sob a chaminé existente ao fundo ou fazendo tremer a pequena mesa onde a mãe preparava os alimentos para o lume e mais tarde a família os comeria. Algumas conseguiam emergir de toda essa mondongaria até o rebordo da cama dos pais, onde assomavam os seus rostitos inocentes, os seus olhitos duma curiosidade embrionária, como se nos mirassem do peitoril duma janela que lhes faltava."
In “Os Fragmentos”, “Historial da Velha Mina”

 

“SCENA XI”
“ANNA: (Esfarrapada, cabelos em desalinho, sentada numa das margens do rio, soluça) -... Tão bonita foi a minha vida. Moça, adorada por todos da freguesia, era uma rainha. Cazei-me e com o meu marido que é um homem trabalhador, honesto, vivia feliz. A felicidade ainda chegou a redobrar, quando vieram os nossos filhinhos. Mas... não há bem que sempre dure... Veio a Allemnha querendo, com as suas forças superiores, tomar-nos o que mais do que legitimamente era nosso. (Pausa). O meu Manuel foi um dos primeiros que chamaram para defender a patria.
Foi, e nós, que vivíamos do seu trabalho, começamos a passar miseria.
Vendi a minha honra para arrancar á fome o ultimo dos meus filhinhos, mas já era tarde; como o primeiro, morreu por não ter que comer.
O malvado, o miserável que, valendo-se do meu amor materno, saciou os seus ludibinosos desejos, abandonou-me. (Aperta, com as mãos, a cabeça). Eu bem sabia que elle faria isso. Vendi-me, mas foi para salvar o meu filho, mas... Deus não o quis na terra. (Pausa).
Para que me serve agora a vida, ó meu Deus?! Sem filhos, esses pedaços do meu coração; deshonrada, indigna de unir-me ao meu marido; exhausta; esfarrapada; esfomeada; cheia de remorsos... para que quero eu a vida? (Levanta-se. Ao longe ouve-se um canto melancólico que se aproxima). Ó Alemanha, Alemanha, sê maldita! (Atira-se ao rio. O palco fica um momento deserto. Depois aparecem correndo para a margem do rio, duas pastoras).

Alma Lusitana
(Peça em 6 quadros e 2 actos)

 

“Após esse longo olhar de amor com que todos os dias eu envolvia o oceano, a terra e o céu, sentei-me e dispus-me a ler, como de costume. Logo, porém, que abri o livro, um rumor veio de dentro da capela. Surpreendido, voltei-me e notei que a porta estava semi-aberta. Era a primeira vez que isto me acontecia. Até então, eu encontrara sempre ali o maior silêncio, um abandono total, com esse sabor poético, fino, voejante, que parece destilado pelo ar e é próprio das ermidas que padroam as montanhas. Agora, os rumores continuavam. Senti passos e vi um homem transpor a porta. Trazia os braços fechados sobre numerosos ex-votos – barcos de cera e pequenos quadros, ingénuas pinturas feitas sobre madeira. Ao dar comigo, estacou, contrariado; teve, em seguida, uma expressão incerta, logo um movimento de indiferença, e dirigiu-se, resoluto, para o extremo do adro.”

O Senhor dos Navegantes

 

“A rua queria ser um oásis naquele deserto da honestidade convencional, e tinha o orgulho do homem são entre leprosos, ao ver que nenhuma das suas casas fôra desonrada ainda pelo corpo duma prostituta legal.
E por isso, quando Guida ali se instalou, a rua sentiu-se melindrada, ofendida, e todos os seus habitantes, adentro do lar, se revoltaram e pronunciaram vocábulos que a indignação ditava e que aos próprios lupanares fariam enlividecer.
E tôdas as recriminações convergiam para o senhorio, para o homem sem escrúpulos que alugara ali, na rua honesta, à prostituta desconhecida, uma saleta no rez-do-chão...”

In “A Casa dos Moveis Dourados”, “A cortezã da Rua Honesta”

 

“Os Escritores”
“São os escritores os argonautas de todos os mares convulsos da alma e os aeronautas de todos os céus tranquilos da Beleza.
Eles são como espelhos onde a tragédia procura alinhar a sua cabeleira desgrenhada e as suas penas são como termómetros que marcam todos os graus da dôr humana. E adentro da Vida os escritores são maiores do que o mito de deus, poque êles não só desvendam a alma do Homem, como criam à margem da vida um homem mais perfeito do que aquele que a lenda afirma ter deus criado.”

In “A Epopeia do Trabalho”, “Os Escritores”

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